É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, se tornaram participantes do Espírito Santo,
provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro e caíram … Hb 6.4–6.
O contexto literário deste texto é bem esclarecedor. Nos capítulos 3 e 4, o autor relembra a geração que saiu do Egito com Moisés. Todos viram os milagres, atravessaram o mar, comeram o maná e experimentaram a presença de Deus no deserto. Ainda assim, muitos pereceram em incredulidade. O autor escreve: “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo” (Hb 3.12). E depois: “Não foi com os que pecaram, cujos corpos caíram no deserto?” (Hb 3.17). A mesma advertência aparece no capítulo 4: “Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia, segundo o mesmo exemplo de desobediência” (Hb 4.11). Ainda assim, a maioria morreu no deserto em rebelião e incredulidade.
Dessa forma, é plausível que em Hebreus 6 o autor ainda usa a mesma linguagem do Êxodo. Por exemplo, ser “iluminado” aponta para a luz da coluna de fogo guiando Israel no deserto. “Provar o dom celestial” lembra o maná. “Provar a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” recorda os milagres, a revelação dada por Moisés e os atos poderosos do Senhor em favor do povo.
A geração do deserto participou de tudo isso sem jamais confiar verdadeiramente em Deus. O ponto do texto não é que pessoas regeneradas perderam a salvação, mas que pessoas profundamente expostas às realidades do povo de Deus podem continuar com o coração endurecido.
Essa é a advertência de Hebreus. É possível frequentar a igreja, ouvir sermões, servir, cantar, participar dos sacramentos, emocionar-se, conviver com o agir de Deus e ainda assim nunca ter pertencido verdadeiramente a Cristo. Judas caminhou com Jesus durante três anos. Demas trabalhou ao lado de Paulo. Porém, não eram genuinamente convertidos.
É impossível, portanto, que aqueles que foram expostos ao evangelho, participaram da igreja visível e depois apostataram, sejam outra vez renovados para arrependimento. Experimentaram privilégios espirituais reais, conviveram com o povo de Deus e conheceram a verdade, mas nunca pertenceram verdadeiramente a Cristo. Como escreveu João: “Saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco” (1Jo 2.19)
Por isso, Hebreus nos chama a examinar o coração. É, sem dúvida, um grande perigo ser exposto aos privilégios da fé enquanto permanece com o coração endurecido. Jesus advertiu: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus”.
Texto duro. Necessário também. Não basta sair do Egito. É necessário que o Egito saia de você! Mais do isso: necessário um novo coração para aspirar a Terra Prometida.
Por fim, cito Hebreus 6:9 (NVT): Amados, embora estejamos falando dessa forma, na realidade não cremos que se aplique a vocês. Temos certeza de que estão destinados às coisas melhores que pertencem à salvação.
Rev. Jessé Vinícius